terça-feira, 20 de setembro de 2005

Não sei dizer o que sinto,
tudo que digo parece falso.
às vezes, é verdade, minto,
e me perco nos labirintos
que faço.
***
Andando por ermos caminhos,
quando sou eu mesmo,
estou mal acompanhado e sozinho.
***
Deste poema que agora trago,
agouro trago, saramaga cor,
trago seu gosto amargo
como quem devora a dor,
a dor me deixa vago,
mais argo do que sou.
Joao Andrade | 21:34:42 comentários[0].
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Desfiz-me aos poucos,
um pedaço romântico,
outro tanto barroco.
Há rimas que desfiz com sopapos,
há poemas que desfiz com socos,
os alguéns em mim
desfiz com porradas.
Para recomeçar é preciso estar oco.
***
Um pouco parco,
um pouco fraco,
buraco.
Um pouco porco,
um pouco corpo,
escopo.
Um pouco eu,
um pouco teu,
ateu.
Um pouco meu,
um pouco deus,
adeus.
Um pouco louco,
um pouco pouco,
Barroco.
***
Este destino falso que faço,
que traço me intriga,
não sei qual é o próximo passo,
só o ocaso me abriga.
Este destino fausto,
ocupa espaço, abre os braços, me amiga,
não sei qual é o próximo laço,
só o ocaso me intriga.
***
Meu coração nada almeja,
nada alveja.
Se reparte em partes e na orgia
serve-se em fatias em uma bandeija.
Ao sol, diante do infinito,
lança um grito, abre as asas
e rasteja.
Joao Andrade | 21:16:07 comentários[0].
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segunda-feira, 6 de junho de 2005

(Salvador Dali)
Nasci assim, jogado, atado,
meio de lado, meio a ermo.
Tentei ser tudo, até eu mesmo.
***
Tenho mudado tanto,
sou tão diferente do que já fui um dia,
que se eu me perdesse de mim,
ao me encontrar, eu me reconheceria.
***
Apenas dois gritos durante a luta,
um quando se nasce,
o outro ninguém escuta.
Joao Andrade | 11:31:27 comentários[0].
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domingo, 29 de maio de 2005

Nada em mim é infinito,
o mundo é mudo,
eu sou todo grito.
Nada em mim é bendito,
o mundo muda,
eu sou todo mito.
Nada em mim é prescrito,
o mundo é mundano,
eu sou o que deixo escrito.
Joao Andrade | 18:59:37 comentários[2].
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Às vezes falo, grito,
mesmo estando mudo.
Há sentimento
que não se traduz,
as palavras não dizem tudo.
Joao Andrade | 18:42:51 comentários[1].
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Cada vez que beijo
teu peito,
um desatino.
Num instante a inocência,
sou homem,
em outro o desejo,
sou menino.
Joao Andrade | 18:41:51 comentários[0].
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Mesmo que por entre
os dedos
a vida me vaze,
quero tê-la fluida
e fugidia
como a certeza
de um quase.
Joao Andrade | 18:40:46 comentários[3].
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Só um conselho
dou ao espelho:
Nunca me olhe nos olhos,
sempre me olhe de lado.
É que me apego fácil,
posso acabar apaixonado.
Joao Andrade | 18:37:56 comentários[0].
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Não passo do ser que crio,
se me devoro, me decifro,
me reciclo, me recrio.
Se me aqueço, me esqueço,
apodreço, me esfrio.
Afundo no mar profano do engano,
no mar humano do desvio.
Não disfarço, desfaço o cio,
faço-me estéril, esfinge,
corpo inerte, corpo frio.
Nunca me farto
duas vezes no mesmo vazio.
Joao Andrade | 18:35:29 comentários[2].
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